5 min de leitura
Arte: Felipe de Lima Mayerle

Quando ele me vê, vem correndo na minha direção, os cachos loiros balançando no ar, os braços agitados de um jeito engraçado. Diante de mim, não tem bom dia nem como vai. O bonitão vai direto ao assunto: quero ver o cachorrinho. Ou: quero ver o gatinho. Meu vizinho tem três anos e ao me ver pensa logo nos meus animais. Se não vê o gato na garagem ou sobre o muro me pergunta onde ele está. Qualquer resposta que eu lhe dê é recebido com um ar de surpresa. Talvez seja incompreensível para ele que o gato prefira dormir dentro de casa do que brincar lá fora.

Samuel é uma das crianças que cresce na minha vizinhança. Com algumas delas, tenho alguma interação.  Interagir com criança pequena é uma fonte de deslumbramento que não desprezo. Conforme elas vão crescendo, vão se distanciando de nós adultos. De cada uma delas guardo na memória um momento de originalidade que iluminou meu dia.

Gustavo era aquele que me abordava quando eu saia para o trabalho e me contava coisas que eu não entendia; falava num tatibitate que talvez só a mãe traduzisse. Segurando um objeto tão indecifrável quanto sua fala, um pedaço de um objeto qualquer que eu não identificava, fazia um sinal com a mãozinha. Queria me contar algo. Eu parava diante dele e ouvia suas histórias narradas em uma língua estrangeira. A mesma língua em que todos nós fomos fluentes um dia, mas esquecemos. As falas vinham acompanhadas por gestos e expressões que diziam muito. Posso até inventar uma história a partir do que vi no rostinho do Gustavo, mas não tenho a menor ideia do que ele de fato tentava me dizer.

Houve outro menino, João, que costumava caminhar por um pequeno pátio, sempre perdido em seus pensamentos. Provavelmente imaginava aventuras ou relembrava algo que havia lido, talvez batalhas disputadas no vídeo game. A imaginação era tão forte que se punha a gesticular e expressar no rosto as emoções que a aventura lhe provocava. Fazia isso diariamente. Às vezes eu o via lá fora e avisava meus filhos: “O João está lá fora, sonhando”. Não ousávamos atrapalhar os sonhos do João.

A Gabriela, rara menina em uma vizinhança tomada por meninos, me fez ver que algumas diferenças entre eles começam cedo. Por um motivo qualquer, foi encarregada de levá-la um dia para a escola. Ela e meus filhos estudavam na Escola Estadual Ângelo Trevisan. No curto percurso, que meus dois meninos sempre faziam calados, a menina Gabriela falava sem parar. Me contou sobre professoras e colegas com deslumbramento, como se descrevesse estrelas de Hollywood. Usava muitos adjetivos: lindo, fofa, incrível. Cada frase, um adjetivo. Ela até soava convincente porque seu entusiasmo era genuíno, assim como sua necessidade de falar. Gabriela, dos lindos olhos verdes, que já mocinha me contou que o pai havia proibido um namorico. Parecia resignada, mas se saiu com essa: “E como fica o meu coração, tia?”

**

A Escola Estadual Ângelo Trevisan vai mudar para um outro prédio no próximo ano. Vai dividir espaço com o Colégio Bom Pastor, outro que luta para sobreviver. A Ângelo Trevisan é uma linda escolinha que faz par com a capela de São Judas Tadeu, no outro lado da rua, as duas construídas pela comunidade italiana do bairro Cascatinha. Deve ser uma das últimas, se não a última, escola de Curitiba que ocupa um imóvel de madeira: tábuas largas e mata-junto, piso que range quando caminhamos.

Ao longo dos anos, a direção da Ângelo Trevisan construiu uma ótima reputação para a escola. Graças à Antonia, Maria Gorete, Enedina, Dalva, Cris, Ana e tantos outros e outras que conseguiram oferecer um bom ensino apesar da instabilidade do sistema de ensino estadual, engessado que é por regras e pelo orçamento apertado que faz de cada volta às aulas uma aventura.

***

Do outro lado da rua, a capela, também de madeira, se destaca em um terreno alto, sempre bem cuidada, sempre renovada com novas camadas de tinta. É zelada por algumas famílias que organizam almoços para arrecadar fundos. Nos almoços, serve-se a comida típica de Santa Felicidade. O atendimento é simpático e eficiente. Estão sempre lotados.

A primeira vez que entrei na capela, às oito da manhã de um domingo, tive uma surpresa: para atender a pequena comunidade, subiu ao altar um padre de pele negra como a noite. Sorridente e bom pregador, era haitiano e me pareceu totalmente integrado à italianada. Ao fim da missa, vi as senhorinhas do Cascatinha abraçando e beijando o simpático padre Gustot, que é da Congregação dos Scalabrinianos, que dá assistência a imigrantes ali na igreja matriz de Santa Felicidade. Ele se revezava com os outros padres da paróquia para celebrar a missa semanal na capela.

Sou uma estrangeira por aqui. Não faço parte das famílias com belos sobrenomes italianos que são maioria no Cascatinha.  Então não falo por eles, mas para mim o grande patrimônio deste bairro são a escola Ângelo Trevisan, a Capela de São Judas Tadeu, o rio Uvu e alguns restos de bosques onde se protegem as aves barulhentas que nos acordam todas as manhãs.

***

O lema dos padres Scalabrinianos é o versículo de Mateus: “Eu era estrangeiro e vocês me acolheram”.

Privacy Preference Center